Não há monstros na Primeira Página
Fala-se muito de inteligência artificial (IA), mas, em boa verdade, pouco se sabe, afirmou Ludwig Krippahl, especialista em IA e orador convidado do Agrupamento de Escolas Figueira Mar, numa conferência sobre Inteligência Artificial realizada no dia 26 de maio, no Auditório Afonso Ernesto de Barros (Misericórdia Obra da Figueira).
Defendeu também que se especula o potencial negativo preferindo-se sempre apresentar o monstro na primeira página porque afinal explorar mitologias catastróficas confirma que o sangue vende jornais, mas que o sangrar vende muito mais. Também que é necessário entender que, no mundo dos negócios, a racionalidade, ainda que velada, é sempre a mesma - quem fica para trás na tecnologia, no caso, a IA, prefere o alarmismo como estratégia de eliminação da concorrência.
Conclusão do Ludwig: neste momento, a IA é mera simulação, não possui consciência e, por isso, a capacidade de se replicar a si própria de forma autónoma. Há obviamente riscos, mas também há, no deve e no haver, mais efeitos positivos.
A inteligência artificial é uma tecnologia com um potencial extraordinário, desde tarefas simples, como classificar dados, até tarefas mais complexas, como dirigir um carro, detetar fraudes ou diagnosticar condições médicas. A IA pode revolucionar muitos setores e causar um impacto significativo na sociedade. No entanto, também levanta uma série de preocupações éticas, incluindo questões relacionadas com o preconceito, a privacidade, a responsabilidade, a transparência, o emprego e, claro está, a autonomia. Estas preocupações éticas estão já aí, como, por exemplo, no caso da manipulação de eleições nos EUA (2008), do algoritmo de seleção de candidatos a empregos da Google (2014), ou do acidente fatal envolvendo um Tesla de condução sem condutor (2016), são o foco do debate e da pesquisa em andamento e serão um fator importante na formação do futuro desenvolvimento e uso da IA.
Ludwig Krippahl explicou o que é e não é a IA. Distinguiu a parte da programação, assente em inferências dedutivas do tipo p → q, de aprendizagem profunda, aquilo que hoje se considera de facto IA, assente em inferências indutivas e, por isso, em cálculo de probabilidades. Explicou os fundamentos científicos e matemáticos das redes neuronais por trás da aprendizagem profunda, introduzindo, de forma breve, o funcionamento de modelos como o ChatGPT e o Stable Diffusion. Depois afirmou que, ao contrário do que se pensa quando se apresenta a ciência como se fosse religião, a tecnologia da IA é, na sua totalidade, opaca para quem a criou e que o algoritmo complexo é como uma enorme rede de pesca que varre todos os dados disponíveis e que, depois, elimina o ruído (viés indutivo) com base em probabilidades.
Sabe-se que a arquitetura funciona, mas não se sabe bem como nem porquê funciona. Por exemplo, no caso do ChatGPT, sabe-se que se o desafio é continuar o “Era uma vez…”, o mais provável é que apareça “uma” e a seguir “princesa” e assim sucessivamente. A aleatoriedade do sistema é, afinal, a mesma que nos leva a concluir que se o céu tem estado nublado, o mais provável é que vá chover. Neste caso, como se sabe, é recomendável sair de casa com o guarda-chuva, mas não quer dizer que vá chover, de facto. Portanto, tal como na vida real, a aleatoriedade não é fragilidade, mas força dos sistemas de IA.
No final, Ludwig Krippahl sublinhou que a IA é uma tecnologia e que a verdadeira ameaça é o modo como pode ser usada. No final do dia, a eletricidade é potencialmente mais perigosa do que a IA. Primeiro, porque sem eletricidade não há IA. Depois porque a eletricidade pode ser usada para, por exemplo, torturar pessoas inocentes. A ética da IA não será, na sua essência, muito diversa da ética de qualquer outra tecnologia. Provavelmente por serem todas humanas, demasiado humanas.